Não existem homossexuais

Adorei esse texto publicado no caderno Ilustrada da Folha de S. Paulo de hoje (08/08), muito bom!

Não existem homossexuais
JOÃO PEREIRA COUTINHO
Acreditar que um adjetivo se converte em substantivo é uma forma de moralismo pela via errada

NÃO CONHEÇO homossexuais. Nem um para mostrar. Amigos meus dizem que existem. Outros dizem que são. Eu coço a cabeça e investigo: dois olhos, duas mãos, duas pernas. Um ser humano como outro qualquer. Mas eles recusam pertencer ao único gênero que interessa, o humano. E falam do "homossexual" como algumas crianças falam de fadas ou duendes. Mas os homossexuais existem?

A desconfiança deve ser atribuída a um insuspeito na matéria. Falo de Gore Vidal, que roubou o conceito a outro, Tennessee Williams: "homossexual" é adjetivo, não substantivo. Concordo, subscrevo. Não existe o "homossexual". Existem atos homossexuais. E atos heterossexuais. Eu próprio, confesso, sou culpado de praticar os segundos (menos do que gostaria, é certo). E parte da humanidade pratica os primeiros. Mas acreditar que um adjetivo se converte em substantivo é uma forma de moralismo pela via errada. É elevar o sexo a condição identitária. Sou como ser humano o que faço na minha cama. Aberrante, não?

Uns anos atrás, aliás, comprei brigas feias na imprensa portuguesa por afirmar o óbvio: ter orgulho da sexualidade é como ter orgulho da cor da pele. Ilógico. Se a orientação sexual é um fato tão natural como a pigmentação dermatológica, não há nada de que ter orgulho. Podemos sentir orgulho da carreira que fomos construindo: do livro que escrevemos, da música que compusemos. O orgulho pressupõe mérito. E o mérito pressupõe escolha. Na sexualidade, não há escolha.

Infelizmente, o mundo não concorda. Os homossexuais existem e, mais, existe uma forma de vida gay com sua literatura, sua arte. Seu cinema. O Festival de Veneza, por exemplo, pretende instituir um Leão Queer para o melhor filme gay em concurso. Não é caso único. Berlim já tem um prêmio semelhante há duas décadas. É o Teddy Award. Estranho. Olhando para a história da arte ocidental, é possível divisar obras que versaram sobre o amor entre pessoas do mesmo sexo. A arte greco-latina surge dominada por essa pulsão homoerótica. Mas só um analfabeto fala em "arte grega gay" ou "arte romana gay". E desconfio que o imperador Adriano se sentiria abismado se as estátuas de Antínoo, que mandou espalhar por Roma, fossem classificadas como exemplares de "estatuária gay". A arte não tem gênero. Tem talento ou falta de.
E, já agora, tem bom senso ou falta de. Definir uma obra de arte pela orientação sexual dos personagens retratados não é apenas um caso de filistinismo cultural. É encerrar um quadro, um livro ou um filme no gueto ideológico das patrulhas. Exatamente como acontece com as próprias patrulhas, que transformam um fato natural em programa de exclusão. De auto-exclusão.

Eu, se fosse "homossexual", sentiria certa ofensa se reduzissem a minha personalidade à inclinação (simbólica) do meu pênis. Mas eu prometo perguntar a um "homossexual" verdadeiro o que ele pensa sobre o assunto, caso eu consiga encontrar um no planeta Terra.

8 comentários:

Poison disse...

Arrasou!

Abraços!!!

Ricardo disse...

Meu lindo, hoje parece o dia dos textos sobre homossexualidade!!!

Eu postei uma reportagem no meu blog que tem tudo a ver com essa coisa de identidade! Caramba!

Eu adorei o texto! E me arrisco a dizer que o escritor deve ser um enrustido! Huahauhuahau!

Beijão!

Oz disse...

É um bom ponto de vista e parece-me até bem intencionado.
Eu tendo a concordar, claro, que nunca, mas mesmo NUNCA, quis ficar reduzido à minha sexualidade. Mas tenho aprendido uma coisa nos últimos tempos: às vezes, até as coisas passarem a ser tão naturais que não importa mais se são substantivos ou adjectivos, é importante, sim, dar-lhes nomes.
Sou avesso a quotas e a rótulos, a distinções que não pelo mérito, mas dou de barato que, de repente, Veneza se lembre de incluir um Leão de Ouro no seu famoso festival para premiar uma obra de "Cinema Gay", pois, por muito que isso seja redutor para a obra em questão, também é um facto que vai permitir sensibilizar novos públicos. Veja-se o caso do tantas vezes citado Brokeback Mountain.
Abração.

Luiz Pep disse...

Já já, venho ler o que ainda não li e dexar um coment, bj:)

edu disse...

Putz, eu tinha programado esse texto pra sair no Beijo amanhã! :-) Agora só me resta mandar o povo vir ler aqui! Beijo, meu Tony Stark!

Cara Imperfeito disse...

Acabei de ler um texto no blog do Ricardo e agora tem o seu. Concordo que não há homossexuais; há hétero de mente aberta - meu caso -, e as bichinhas! Huhaiuhaaui... Calma gente, é brincadeira. Calma!
O texto é bacana, diferente, é um ponto de vista. Mas a parte que gostei é qdo ele cita que "O orgulho pressupõe mérito. E o mérito pressupõe escolha. Na sexualidade, não há escolha".
Perfeito!

Abraço.

luma disse...

Dizem que os anjos não têm sexo. Ótimo texto! Beijus

hotspot_fortaleza disse...

MUITO BOM ESSE TEXTO

BEIJOS

http://hotspotfortaleza.blogspot.com/

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